23 novembro 2025

Jogo de Espelhos (Lover Merman)

O capítulo final de “Lover Merman" é acima da média, não só comparado com os capítulos anteriores, mas também com capítulos de séries até mais famosas e incensadas. É um excelente fecho para uma produção que caminhou entre problemas e qualidades durante toda a sua duração. Se por um lado, temos questões com atuação e direção, com trechos que soam artificiais e até forçados, por outro lado temos a louvável escolha de investir em efeitos práticos e reduzir significativamente o uso de CGI, o que conferiu um visual muito interessante para os tritões, grande mote da série.

Os casais principal e secundário tem histórias bastante satisfatórias para os fãs do gênero BL, realizadas com alguma competência, ainda que imperfeitamente, mas eu gostaria de me concentrar aqui naquele que é o meu personagem favorito (quem me conhece sabe): Phraphai (Film Jirayu Aungvanich). Phraphai é constituído a partir de jogos de opostos: espelhamentos em negativo de vários outros personagens e
situações na série. 


O primeiro espelhamento, e mais óbvio, é com Phurit. Enquanto Phraphai é apaixonado “secretamente” por Nawa, Phurit é aberto e franco quanto aos seus sentimentos. Phraphai é um tanto ardiloso e indireto. Phurit é direto, aberto, honesto. Ambos desejam proteger Nawa, mas enquanto um é superprotetor e sufocante, o outro dá a Nawa a liberdade de descobrir as coisas por conta própria, tratando-o como o homem adulto que é. 


O resultado disso é que, nos últimos episódios, quando Nawa precisa demonstrar coragem e força, ele encontra em si mesmo essas qualidades, tomando a atitude de enfrentar os problemas sozinho, disposto a oferecer a própria vida, caso necessário. Aliás, esse desenvolvimento é outra boa escolha da série: uma quebra bem vinda do clichê “passivo frágil” que vinha se desenvolvendo até ali. E é nesse ponto que finalmente Phraphai parece entender como Nawa quer ser tratado.


Outro espelhamento é com os PhuthanWinyu. O casal convidado, assim como Phraphai e Nawa, foram criados juntos, como irmãos, mas sabem que não são. Mas os “irmãos” de Phurit têm sentimentos mútuos, decidem se esforçar para ficar juntos e encerram seu curto arco com um final feliz, embora cheio de questões futuras a enfrentar. Os tritões não: o medo de Phraphai impossibilita qualquer chance de desenvolvimento romântico e ele continua sendo visto por Nawa apenas como irmão.


O que eu descrevo aqui, somado a outras circunstâncias que a série aborda, leva o amor de Phraphai a se degenerar cada vez mais em ciúme, possessividade, mentiras e até cárcere privado (o que também vai ser o espelhamento em negativo do amor dos PhuritNawa: tão forte quanto, mas saudável, colaborativo). Há, no entanto, uma reviravolta importante. Porque Phraphai não é apenas um vilãozinho patético. O final da série, antes de passar para os clichês sem graça, mas difíceis de contornar, dá a esse personagem uma camada a mais.


Apresenta-se a Phraphai uma forma de fazer Nawa feliz e a possibilidade de restaurar a beleza do amor que ele demonstrava lá no começo da série. Uma maneira extrema de corrigir seus erros, ainda que parcialmente. E o momento em que ele agarra essa oportunidade é o último ato do personagem mais instigante dessa série. É uma cena quase bíblica.


Lover Merman está longe de ser perfeita. Mas é preciso alguma ousadia pra fazer de um argumento que parecia apenas uma desculpa para mostrar homens seminus uma metáfora para o preconceito; e para desenhar um antagonista interessante e rico, cheio de zonas cinzas, irritante e, ainda assim, carismático. 


Minha vida é a última coisa que eu te darei.


05 março 2025

Dois homens na escada (To My Star)


Um homem está parado na escada. Minutos atrás, esse mesmo homem era grande e meio sisudo. Agora, porém, ele parece ser pequeno e frágil. Está olhando para um outro homem, dois degraus acima, e a altura dos degraus o faz parecer ainda menor. O homem que era grande e agora é pequeno pediu um abraço e está chorando. O outro desce os dois degraus e o abraça. Faz-lhe algumas perguntas, que o homem responde entre as lágrimas. Toda uma explicação de um ano de silêncio brota entre os soluços. O homem que era grande está protegido agora.

Essa é, para mim, a cena mais importante de "To My Star". Ela está quase no final da segunda temporada e, se as pessoas fossem mais simples e parassem de exigir explicações desnecessárias, deveria ser o final da série. Quase tudo o que vem depois dela é descartável, ainda que seja bonito, ainda que ofereça algumas explicações e dê alguns desfechos. 

Eu revi To My Star ainda agora e confesso que me lembro de muito pouco do que se segue à cena que descrevo (com alguma liberdade criativa), embora ainda haja quase todo o episódio final depois dela. Por outro lado, quase tudo o que vem antes dela tem uma beleza que me encanta, me alegra e me deixa triste.

Você vai desaparecer assim de novo? O homem que era grande nega com a cabeça. E você também, não ligue pra outras pessoas com frequência e não sorria; eu sou do tipo ciumento, diz, ainda chorando. O outro homem sorri e o abraça novamente.

Essa cena é importante pelo que revela a respeito dos personagens. Mas é ainda mais importante pelas emoções que representa, pelas sensações que causa. Sinto que os olhos úmidos de Han Ji Woo, o homem que era grande, fazem a gente entender tudo: a solidão que ele sentia quando Kang Seo Joon (o outro homem) tinha muitos compromissos e ele não; a incompletude que o assombrava diante do fato de que a sua vida social se resumia ao namorado e a do namorado não; o pesar por saber que o parceiro não tinha culpa nenhuma, embora tivesse que pagar o preço.

Eu não estava tão acostumado a ser eu mesmo.

Eu senti, no exato momento em que a câmera, num plongée quase sutil, coloca Han Ji Woo numa posição de pequenez, que aquela era a primeira vez que ele demonstrava vulnerabilidade real: a incapacidade absoluta de lidar sozinho com alguma coisa. Ele estava implorando, talvez pela primeira vez na vida adulta. E isso me fez chorar junto com ele. Eu também senti que a arrogância que às vezes vem junto com a timidez finalmente o tinha abandonado. Senti a dor dele ao fazer algo que ele achava que precisava fazer, mesmo que fosse a coisa mais emocionalmente avassaladora do mundo. Não importa se era mesmo, o que importa é que ele e eu sentimos que era. 

Você está diante de mim, e eu ainda sinto a sua falta.

Toda essa sequência é pensada para revelar esses sentimentos - e outros. Ela dá complexidade a algo que alguns insistem em afirmar que é simples. Uma pessoa que ama outra não é só uma pessoa que ama outra. Ela é, antes de tudo, uma pessoa. Uma pessoa, com tudo aquilo que a forma e faz dela o que ela é, é muito. E num relacionamento, são duas, pelo menos. Não é necessário nenhum elemento alienígena para perturbar o relacionamento de uma pessoa que ama outra pessoa.

Por isso eu acho que essa cena importa tanto. Por tudo o que esses personagens sentem e nos fazem sentir. Por eles conseguirem ser eles mesmos, um perante o outro. Por reconhecerem as próprias incapacidades e limitações. E por ser uma cena honesta, sem nada além do essencial: dois homens e uma escada.

 

(To My Star é uma série coreana em duas temporadas, que foram ao ar em 2021 e 2022. Direção: Hwang Da Seul; Roteiro: Park Young)