11 fevereiro 2026

Encontro (+18)

(Esse é um conto erótico com os personagens Park e Jet, da série The Wicked Game. Prossiga ciente disso)


Mesmo que Park não tivesse passado o dia todo ao lado de Jet, bastaria olhar o seu rosto para saber que ele estava frustrado, furioso e pronto para descontar esses sentimentos em qualquer um que cruzasse seu caminho. Não, ele não precisava nem olhar o rosto do chefe: o modo como Jet cruzou o jardim, com passos rápidos e duros, já lhe dizia tudo. A conversa com o pai tinha sido… desagradável. 


Park, que caminhava logo atrás de Jet, adiantou-se e abriu a porta da casa. Inclinou respeitosamente a cabeça quando o patrão passou por si e entrou em seguida. Dois homens já esperavam no hall de entrada com notícias ainda mais frustrantes.


– Vocês são completos inúteis!, gritava Jet quase ficando sem voz.


Os homens estavam encolhidos no chão, sob chutes e gritos. Obviamente poderiam neutralizar o jovem que, apesar de forte, estava praticamente histérico, tomado pela raiva, mas sabiam que era melhor apenas aguentar servir de alívio da ira dele por um momento.


– Não conseguem nem se livrar do filho de uma amante!


Park, o assistente, ciente de que seria uma péssima ideia interromper, até ali apenas observava. Minutos depois, o chefe, cansado de chutar e esbravejar, parou um pouco para tomar fôlego. Aproveitando a breve pausa, Park mandou os dois homens se retirarem, o que fizeram rapidamente e com alívio. Deu três passos até estar bem perto do patrão, que apenas lhe disse:


– Uísque. 


E, tocando de leve no cotovelo de Park, passou por ele e sentou-se no grande sofá de couro marrom da sala de estar.


O assistente foi até o bar, pegou a bebida e a serviu num copo com gelo. Enquanto cruzava novamente o cômodo em direção ao sofá, observava Jet sentado, com as pernas abertas e os braços sobre o espaldar, a cabeça totalmente jogada para trás, ainda bufando. Esse garoto mimado precisa relaxar, pensou. Mas disse apenas:


– Sua bebida, senhor Jet.


Jet pegou o copo, bebeu de um gole só e ergueu os olhos vermelhos para Park, que permanecia de pé ao seu lado, devolvendo-lhe o copo. Depois, olhando para algum ponto do outro lado da sala e falando mais para si mesmo do que com o assistente, reclamava sua posição, sua herança, os direitos que aquele bastardo tentava usurpar. Permaneceu assim por um tempo, até ser interrompido por um suspiro profundo e irritado de Park. Jet olhou novamente para cima, bem nos olhos de Park, pronto para voltar à carga. Mas antes que pudesse continuar falando do pai, dos irmãos, dos capangas inúteis ou mesmo da audácia do secretário, ele ouviu:


– Você precisa que eu cuide de você, meu rapaz?


A voz de Park tinha passado de gentil e solícita para firme e dominadora. Jet era apenas um par de anos mais novo que o assistente, mas aquele “meu rapaz” sempre operava nele uma mudança profunda. Os olhos foram perdendo a vermelhidão, as veias saltadas na testa voltaram ao lugar, os lábios crispados esboçaram um meio sorriso e o corpo começou a relaxar. Tudo isso naqueles breves segundos em que os dois olhavam para o rosto um do outro.


– Sim, senhor, respondeu, empolgado. Eu preciso que o senhor cuide de mim.


O olhar mostrava excitação e alegria. O tom da voz era suave. A postura, submissa.


Park deu as costas a Jet, foi até a escada que levava ao andar superior. Como ele ainda não havia levantado do sofá, disse:


– Então, venha. Você sabe que eu não sou paciente.


Jet levantou-se com um pulo – já não restava nada da pose de garoto mimado e autoritário que ele costumava exibir – e rapidamente obedeceu. Foi até Park e segurou na barra do paletó do assistente, que acenou com a cabeça e subiu na frente, seguido por um jovem mestre muito manso e sorridente.


No alto da escada, a porta do quarto. Somente Park sabia aquela senha. Aquela porta era a passagem para uma fantasia, um conto, uma imaginação. Ou seria a porta para a realidade e tudo o mais é que era um fingimento? O apito baixo da fechadura avisou que a passagem estava liberada. Uma luz fraca, difusa, se acendeu. Realidade e fantasia se misturaram mais uma vez…


***


Ajoelhe-se. O joelho se encontrou com o chão, a mão com o zíper e o olhar de Jet com o de Park. Posso? Deve. A mão se encontrou com o pau. A boca se encontrou com o pau. E as lágrimas brotaram quando a glande se encontrou com a úvula. Muito bem, meu rapaz. Os dedos se enroscaram nos cabelos - um puxão. Jet aproveitou para respirar fundo, olhando pro rosto de Park, acima. Lágrimas, suor, saliva. A mão empurrou a cabeça novamente e a boca se abriu para novo encontro com o pau. O tempo se dilatou e se contraiu. A calça já estava ficando ensopada de muitos fluidos diferentes. Levante! Levantou, os olhos vermelhos agora revelando outras sensações. Tire toda a roupa. Devagar, botões foram se abrindo e as roupas foram se acumulando no chão do quarto. A cueca foi parar no peito de Park, que olhava e sorria, aprovando o quão comportado seu rapaz era naquele quarto. Imponente, o peito arfava, brilhando com o suor. O pau apontava pro alto. A boca sorria. E o corpo inteiro aguardava a próxima ordem. Ainda completamente vestido, Park o puxou pela mão e, sentando-se na poltrona grande, aproximou bem o rosto da virilha de Jet. Você quer isso? Sim. Peça. Por favor… Antes de terminar a frase, o pau inteiro já estava dentro da boca de Park. As mãos para trás, o peito estufado e as pernas quase não aguentando. Cada músculo de Jet reagindo ao toque do seu dono. E o orgasmo veio intenso. Olha a bagunça que você fez. As bocas se encontraram. As línguas também. E foi com a língua que o rapaz limpou a bagunça. Dos lábios, do rosto, do pescoço de Park. Desculpe. Outro beijo. Longo, forte, quase agressivo. Está quente aqui. Não havia necessidade de explicar. Jet tirou as peças de roupa de Park, dobrou-as delicadamente e as colocou na mesa lateral. Está pronto? Já se acalmou? O rapaz assentiu. Um movimento rápido e ele já estava sobre os ombros do secretário. Um segundo depois, jogado de costas sobre o colchão. Park se ajoelhou na cama, entre as pernas abertas de Jet. Sem pressa, conduziu a boca por um passeio pelo corpo de seu rapaz. Boca, tórax, mamilos, barriga. Deixou pequenas marcas de sua passagem. Lembretes que diziam a quem aquele corpo pertencia. O corpo reagia se contorcendo, se contraindo, relaxando, endurecendo. A língua encontrou o cu. Era uma ordem semi silenciosa para que Jet relaxasse. E ele, como sempre fazia naquele quarto, obedeceu. Com a dorsal apoiada na cama e a bunda sustentada no alto pelas mãos de Park, Jet deixou os braços caírem, relaxou os músculos e se permitiu, mais uma vez, dominar. Gemia sem se reprimir. O beijo continuava. A língua abria passagem pelo cu. Estava molhado, escorregadio e alegre em ser penetrado. De bruços! Park se curvou sobre Jet, chegou perto do seu ouvido. Você tem sido um bom rapaz. Com uma mão, segurou os braços de Jet acima da cabeça, com o joelho, afastou as duas pernas e com a outra mão, guiou seu pau para dentro do chefe. Devagar, mas firmemente. Até se sentir aceito. Começou a movimentar o quadril com mais intensidade. Os corpos deitados um sobre o outro, praticamente se tornando um só. E assim, sem mudar de posição, sem dar descanso para o seu rapaz, gozou… 


***


Ambos se jogaram na cama. Jet se aninhava entre o braço e o corpo de Park, a cabeça apoiada sobre o seu peito. Ele parecia tranquilo, a não ser por um movimento um tanto nervoso do pé esquerdo. Park sabia o que era, mas perguntou:


– O que houve, meu rapaz?


– Eu… Queria ir de novo. Foi tão rápido!


– Você sabe que aqui eu que mando.


– P’ Park, por favor…


– Então pede com jeitinho.


– P’ Park, me come de novo, por favor?


23 novembro 2025

Jogo de Espelhos (Lover Merman)

O capítulo final de “Lover Merman" é acima da média, não só comparado com os capítulos anteriores, mas também com capítulos de séries até mais famosas e incensadas. É um excelente fecho para uma produção que caminhou entre problemas e qualidades durante toda a sua duração. Se por um lado, temos questões com atuação e direção, com trechos que soam artificiais e até forçados, por outro lado temos a louvável escolha de investir em efeitos práticos e reduzir significativamente o uso de CGI, o que conferiu um visual muito interessante para os tritões, grande mote da série.

Os casais principal e secundário tem histórias bastante satisfatórias para os fãs do gênero BL, realizadas com alguma competência, ainda que imperfeitamente, mas eu gostaria de me concentrar aqui naquele que é o meu personagem favorito (quem me conhece sabe): Phraphai (Film Jirayu Aungvanich). Phraphai é constituído a partir de jogos de opostos: espelhamentos em negativo de vários outros personagens e
situações na série. 


O primeiro espelhamento, e mais óbvio, é com Phurit. Enquanto Phraphai é apaixonado “secretamente” por Nawa, Phurit é aberto e franco quanto aos seus sentimentos. Phraphai é um tanto ardiloso e indireto. Phurit é direto, aberto, honesto. Ambos desejam proteger Nawa, mas enquanto um é superprotetor e sufocante, o outro dá a Nawa a liberdade de descobrir as coisas por conta própria, tratando-o como o homem adulto que é. 


O resultado disso é que, nos últimos episódios, quando Nawa precisa demonstrar coragem e força, ele encontra em si mesmo essas qualidades, tomando a atitude de enfrentar os problemas sozinho, disposto a oferecer a própria vida, caso necessário. Aliás, esse desenvolvimento é outra boa escolha da série: uma quebra bem vinda do clichê “passivo frágil” que vinha se desenvolvendo até ali. E é nesse ponto que finalmente Phraphai parece entender como Nawa quer ser tratado.


Outro espelhamento é com os PhuthanWinyu. O casal convidado, assim como Phraphai e Nawa, foram criados juntos, como irmãos, mas sabem que não são. Mas os “irmãos” de Phurit têm sentimentos mútuos, decidem se esforçar para ficar juntos e encerram seu curto arco com um final feliz, embora cheio de questões futuras a enfrentar. Os tritões não: o medo de Phraphai impossibilita qualquer chance de desenvolvimento romântico e ele continua sendo visto por Nawa apenas como irmão.


O que eu descrevo aqui, somado a outras circunstâncias que a série aborda, leva o amor de Phraphai a se degenerar cada vez mais em ciúme, possessividade, mentiras e até cárcere privado (o que também vai ser o espelhamento em negativo do amor dos PhuritNawa: tão forte quanto, mas saudável, colaborativo). Há, no entanto, uma reviravolta importante. Porque Phraphai não é apenas um vilãozinho patético. O final da série, antes de passar para os clichês sem graça, mas difíceis de contornar, dá a esse personagem uma camada a mais.


Apresenta-se a Phraphai uma forma de fazer Nawa feliz e a possibilidade de restaurar a beleza do amor que ele demonstrava lá no começo da série. Uma maneira extrema de corrigir seus erros, ainda que parcialmente. E o momento em que ele agarra essa oportunidade é o último ato do personagem mais instigante dessa série. É uma cena quase bíblica.


Lover Merman está longe de ser perfeita. Mas é preciso alguma ousadia pra fazer de um argumento que parecia apenas uma desculpa para mostrar homens seminus uma metáfora para o preconceito; e para desenhar um antagonista interessante e rico, cheio de zonas cinzas, irritante e, ainda assim, carismático. 


Minha vida é a última coisa que eu te darei.


05 março 2025

Dois homens na escada (To My Star)


Um homem está parado na escada. Minutos atrás, esse mesmo homem era grande e meio sisudo. Agora, porém, ele parece ser pequeno e frágil. Está olhando para um outro homem, dois degraus acima, e a altura dos degraus o faz parecer ainda menor. O homem que era grande e agora é pequeno pediu um abraço e está chorando. O outro desce os dois degraus e o abraça. Faz-lhe algumas perguntas, que o homem responde entre as lágrimas. Toda uma explicação de um ano de silêncio brota entre os soluços. O homem que era grande está protegido agora.

Essa é, para mim, a cena mais importante de "To My Star". Ela está quase no final da segunda temporada e, se as pessoas fossem mais simples e parassem de exigir explicações desnecessárias, deveria ser o final da série. Quase tudo o que vem depois dela é descartável, ainda que seja bonito, ainda que ofereça algumas explicações e dê alguns desfechos. 

Eu revi To My Star ainda agora e confesso que me lembro de muito pouco do que se segue à cena que descrevo (com alguma liberdade criativa), embora ainda haja quase todo o episódio final depois dela. Por outro lado, quase tudo o que vem antes dela tem uma beleza que me encanta, me alegra e me deixa triste.

Você vai desaparecer assim de novo? O homem que era grande nega com a cabeça. E você também, não ligue pra outras pessoas com frequência e não sorria; eu sou do tipo ciumento, diz, ainda chorando. O outro homem sorri e o abraça novamente.

Essa cena é importante pelo que revela a respeito dos personagens. Mas é ainda mais importante pelas emoções que representa, pelas sensações que causa. Sinto que os olhos úmidos de Han Ji Woo, o homem que era grande, fazem a gente entender tudo: a solidão que ele sentia quando Kang Seo Joon (o outro homem) tinha muitos compromissos e ele não; a incompletude que o assombrava diante do fato de que a sua vida social se resumia ao namorado e a do namorado não; o pesar por saber que o parceiro não tinha culpa nenhuma, embora tivesse que pagar o preço.

Eu não estava tão acostumado a ser eu mesmo.

Eu senti, no exato momento em que a câmera, num plongée quase sutil, coloca Han Ji Woo numa posição de pequenez, que aquela era a primeira vez que ele demonstrava vulnerabilidade real: a incapacidade absoluta de lidar sozinho com alguma coisa. Ele estava implorando, talvez pela primeira vez na vida adulta. E isso me fez chorar junto com ele. Eu também senti que a arrogância que às vezes vem junto com a timidez finalmente o tinha abandonado. Senti a dor dele ao fazer algo que ele achava que precisava fazer, mesmo que fosse a coisa mais emocionalmente avassaladora do mundo. Não importa se era mesmo, o que importa é que ele e eu sentimos que era. 

Você está diante de mim, e eu ainda sinto a sua falta.

Toda essa sequência é pensada para revelar esses sentimentos - e outros. Ela dá complexidade a algo que alguns insistem em afirmar que é simples. Uma pessoa que ama outra não é só uma pessoa que ama outra. Ela é, antes de tudo, uma pessoa. Uma pessoa, com tudo aquilo que a forma e faz dela o que ela é, é muito. E num relacionamento, são duas, pelo menos. Não é necessário nenhum elemento alienígena para perturbar o relacionamento de uma pessoa que ama outra pessoa.

Por isso eu acho que essa cena importa tanto. Por tudo o que esses personagens sentem e nos fazem sentir. Por eles conseguirem ser eles mesmos, um perante o outro. Por reconhecerem as próprias incapacidades e limitações. E por ser uma cena honesta, sem nada além do essencial: dois homens e uma escada.

 

(To My Star é uma série coreana em duas temporadas, que foram ao ar em 2021 e 2022. Direção: Hwang Da Seul; Roteiro: Park Young)

 

14 novembro 2023

O Lobo da Ínsula

Era a tarde de uma quarta-feira e eu já deveria ter chegado ao trabalho. Mas estava de pé, à beira da linha do metrô, a mais de 20 km da sala refrigerada onde deveria estar. Eu vi você pelo canto do olho quando o trem estava chegando: a barba, os braços peludos, o jeitinho de lontra. 

Não: de lobinho. 

Entrei no vagão. Você sentou na minha frente. Eu te olhei por um tempo e sorri. E, aí, aconteceu. Você sorriu de volta. O espírito de deus vagou pela superfície das águas e fez-se a luz. Eu tirei meu fone de ouvido e você disse “oi”. 

Você gosta de pão, eu soube. E cursa Ciências Sociais. E também estava atrasado. Trocamos palavras até a sua estação. Então, você me abraçou. Mas me abraçou muito. Me abraçou tão abraçado que algo de você ficou comigo. 

Na minha pele, no meu corpo, na minha cabeça. Tem você em mim até hoje. Uivando baixinho no meu sistema límbico. 

24 julho 2012

O absorvente


Tudo começa com um pedido simples. Ao menos aparentemente simples, uma vez que o conceito de simplicidade não coaduna com a ideia de comprar absorventes:


- Vai ali no supermercado pra mim? Preciso de absorventes...

O filho, ou marido, ou namorado, ou ainda, quem sabe, aquele amigo bem próximo e por isso mesmo sofrido, coitado, enche-se de coragem e vai, resoluto até a mais temida de todas as seções do supermercado. E lá, entre inocentes lenços de papel e cremes dentais estão eles.

Qualquer homem, ou qualquer mulher com um mínimo de piedade no coração, vai entender a confusão mental em que se encontra o intrépido rapaz prostrado diante daquele mundo de pacotinhos plásticos. Porque absorvente não é como barbeador, que você escolhe pela marca e, no máximo, pelo número de lâminas. Não senhor, nobre colega, o pobre-diabo está neste exato momento frente a uma profusão de opções cuja razão de existir que ele não faz ideia. Tem aquele com abas, o sem abas, o noturno, o diurno, o de fluxo intenso, o com camomila... Alguns tem vincos para direcionar o "fluxo" sabe Deus pra onde. Outros tem um gel que nem Ele imagina pra que serve...

E como se não fosse o bastante, ainda é preciso aguentar a pressão da sociedade. As mulheres ao redor, conhecedoras que são do processo impossível de comprar aquelas almofadinhas brancas, apanham as de sua preferência de olhos fechados. E o pobre está ali, humilhado, tentando entender qual relógio diz para o absorvente diurno parar de funcionar porque já está de noite.

Finalmente ele se decidiu: vai levar aquele sem abas mesmo. Porque ser tão aerodinâmico se, até onde se sabe, nenhum absorvente foi feito para voar? Nosso amigo apanha resoluto o pacotinho e se dirige ao caixa, onde seu tormento terá fim. Só que muito ao contrário.

A moça do caixa é tão simpática, dá boa tarde, pega a "mercadoria" e pensa, mas não diz: "É claro que ele precisa de ajuda..." Depois ela diz, mas não pensa nas consequências que isso acarretará:

- Tem certeza que é essa marca que ela usa? É porque essa não é muito boa...

Pronto. Toda a certeza do mundo foi pelo ralo. Cabisbaixo, ele volta ao reino dos absorventes para verificar, vermelho de emoção, que existem cerca de vinte e cinco mil marcas, cada uma com suas abas, seus níveis de fluxo (por que "fluxo"? Juro que quando ouço isso imagino uma cachoeira hemorrágica sugando toda força vital da mulher), seus agentes naturais, etc, etc.

A essa altura, nosso amigo já está se perguntando se vale a pena viver num mundo em que existem tantos tipos de absorvente. E, a menos que a Divina Providência conceda-lhe o benefício de uma ligação da mulher que aguarda tranquila a compra de "um simples absorvente", a única portadora da resposta para seu enigma existencial, o coitado ficará para sempre diante da esfinge:

- Decifra-me ou te absorvo.

13 junho 2012

Num ponto qualquer

Não, mãe. Não. Não fica triste. É, eu sei. Dia dos namorados, todo mundo comemorando. Mas a gente não tem nenhum motivo pra ficar feliz nesse dia. A vovó. Tão boazinha. A tia Ermelinda disse que foi no dia 11 que ela morreu. Que dia 12 foi só o enterro, né? Que deu aquela confiusão. É... O corpo sumiu e tudo. Pois é... Mas ela deve estar num lugar melhor...  Oi? Ah! Esperando o ônibus. Não, aqui não tem banco. Tem que esperar em pé mesmo. É, é difícil. Marquinhos? Tá bem. Mais ou menos, na verdade. É ele não tá mais trabalhando com isso, não... Não sei. A polícia queria bater nele lá na estação e tudo... É deve ser... Por causa daquelas tatuagens e tudo... Eu já disse a ele. Tem que arranjar um emprego certo. Uma coisa fixa... É, mãe.... Mas é isso mesmo. Vou desligar, tenho de ir agora. Vai, vai ver a novela. Beijo... Também tenho saudades... Thau.