Um homem está parado na escada. Minutos atrás, esse mesmo homem era grande e meio sisudo. Agora, porém, ele parece ser pequeno e frágil. Está olhando para um outro homem, dois degraus acima, e a altura dos degraus o faz parecer ainda menor. O homem que era grande e agora é pequeno pediu um abraço e está chorando. O outro desce os dois degraus e o abraça. Faz-lhe algumas perguntas, que o homem responde entre as lágrimas. Toda uma explicação de um ano de silêncio brota entre os soluços. O homem que era grande está protegido agora.
Essa é, para mim, a cena mais importante de "To My Star". Ela está quase no final da segunda temporada e, se as pessoas fossem mais simples e parassem de exigir explicações desnecessárias, deveria ser o final da série. Quase tudo o que vem depois dela é descartável, ainda que seja bonito, ainda que ofereça algumas explicações e dê alguns desfechos.
Eu revi To My Star ainda agora e confesso que me lembro de muito pouco do que se segue à cena que descrevo (com alguma liberdade criativa), embora ainda haja quase todo o episódio final depois dela. Por outro lado, quase tudo o que vem antes dela tem uma beleza que me encanta, me alegra e me deixa triste.
Você vai desaparecer assim de novo? O homem que era grande nega com a cabeça. E você também, não ligue pra outras pessoas com frequência e não sorria; eu sou do tipo ciumento, diz, ainda chorando. O outro homem sorri e o abraça novamente.
Essa cena é importante pelo que revela a respeito dos personagens. Mas é ainda mais importante pelas emoções que representa, pelas sensações que causa. Sinto que os olhos úmidos de Han Ji Woo, o homem que era grande, fazem a gente entender tudo: a solidão que ele sentia quando Kang Seo Joon (o outro homem) tinha muitos compromissos e ele não; a incompletude que o assombrava diante do fato de que a sua vida social se resumia ao namorado e a do namorado não; o pesar por saber que o parceiro não tinha culpa nenhuma, embora tivesse que pagar o preço.
Eu não estava tão acostumado a ser eu mesmo.
Eu senti, no exato momento em que a câmera, num plongée quase sutil, coloca Han Ji Woo numa posição de pequenez, que aquela era a primeira vez que ele demonstrava vulnerabilidade real: a incapacidade absoluta de lidar sozinho com alguma coisa. Ele estava implorando, talvez pela primeira vez na vida adulta. E isso me fez chorar junto com ele. Eu também senti que a arrogância que às vezes vem junto com a timidez finalmente o tinha abandonado. Senti a dor dele ao fazer algo que ele achava que precisava fazer, mesmo que fosse a coisa mais emocionalmente avassaladora do mundo. Não importa se era mesmo, o que importa é que ele e eu sentimos que era.
Você está diante de mim, e eu ainda sinto a sua falta.
Toda essa sequência é pensada para revelar esses sentimentos - e outros. Ela dá complexidade a algo que alguns insistem em afirmar que é simples. Uma pessoa que ama outra não é só uma pessoa que ama outra. Ela é, antes de tudo, uma pessoa. Uma pessoa, com tudo aquilo que a forma e faz dela o que ela é, é muito. E num relacionamento, são duas, pelo menos. Não é necessário nenhum elemento alienígena para perturbar o relacionamento de uma pessoa que ama outra pessoa.
Por isso eu acho que essa cena importa tanto. Por tudo o que esses personagens sentem e nos fazem sentir. Por eles conseguirem ser eles mesmos, um perante o outro. Por reconhecerem as próprias incapacidades e limitações. E por ser uma cena honesta, sem nada além do essencial: dois homens e uma escada.
(To My Star é uma série coreana em duas temporadas, que foram ao ar em 2021 e 2022. Direção: Hwang Da Seul; Roteiro: Park Young)