O capítulo final de “Lover Merman" é acima da média, não só comparado com os capítulos anteriores, mas também com capítulos de séries até mais famosas e incensadas. É um excelente fecho para uma produção que caminhou entre problemas e qualidades durante toda a sua duração. Se por um lado, temos questões com atuação e direção, com trechos que soam artificiais e até forçados, por outro lado temos a louvável escolha de investir em efeitos práticos e reduzir significativamente o uso de CGI, o que conferiu um visual muito interessante para os tritões, grande mote da série.
Os casais principal e secundário tem histórias bastante satisfatórias para os fãs do gênero BL, realizadas com alguma competência, ainda que imperfeitamente, mas eu gostaria de me concentrar aqui naquele que é o meu personagem favorito (quem me conhece sabe): Phraphai (Film Jirayu Aungvanich). Phraphai é constituído a partir de jogos de opostos: espelhamentos em negativo de vários outros personagens e
situações na série.
O primeiro espelhamento, e mais óbvio, é com Phurit. Enquanto Phraphai é apaixonado “secretamente” por Nawa, Phurit é aberto e franco quanto aos seus sentimentos. Phraphai é um tanto ardiloso e indireto. Phurit é direto, aberto, honesto. Ambos desejam proteger Nawa, mas enquanto um é superprotetor e sufocante, o outro dá a Nawa a liberdade de descobrir as coisas por conta própria, tratando-o como o homem adulto que é.
O resultado disso é que, nos últimos episódios, quando Nawa precisa demonstrar coragem e força, ele encontra em si mesmo essas qualidades, tomando a atitude de enfrentar os problemas sozinho, disposto a oferecer a própria vida, caso necessário. Aliás, esse desenvolvimento é outra boa escolha da série: uma quebra bem vinda do clichê “passivo frágil” que vinha se desenvolvendo até ali. E é nesse ponto que finalmente Phraphai parece entender como Nawa quer ser tratado.
Outro espelhamento é com os PhuthanWinyu. O casal convidado, assim como Phraphai e Nawa, foram criados juntos, como irmãos, mas sabem que não são. Mas os “irmãos” de Phurit têm sentimentos mútuos, decidem se esforçar para ficar juntos e encerram seu curto arco com um final feliz, embora cheio de questões futuras a enfrentar. Os tritões não: o medo de Phraphai impossibilita qualquer chance de desenvolvimento romântico e ele continua sendo visto por Nawa apenas como irmão.
O que eu descrevo aqui, somado a outras circunstâncias que a série aborda, leva o amor de Phraphai a se degenerar cada vez mais em ciúme, possessividade, mentiras e até cárcere privado (o que também vai ser o espelhamento em negativo do amor dos PhuritNawa: tão forte quanto, mas saudável, colaborativo). Há, no entanto, uma reviravolta importante. Porque Phraphai não é apenas um vilãozinho patético. O final da série, antes de passar para os clichês sem graça, mas difíceis de contornar, dá a esse personagem uma camada a mais.
Apresenta-se a Phraphai uma forma de fazer Nawa feliz e a possibilidade de restaurar a beleza do amor que ele demonstrava lá no começo da série. Uma maneira extrema de corrigir seus erros, ainda que parcialmente. E o momento em que ele agarra essa oportunidade é o último ato do personagem mais instigante dessa série. É uma cena quase bíblica.
Lover Merman está longe de ser perfeita. Mas é preciso alguma ousadia pra fazer de um argumento que parecia apenas uma desculpa para mostrar homens seminus uma metáfora para o preconceito; e para desenhar um antagonista interessante e rico, cheio de zonas cinzas, irritante e, ainda assim, carismático.
Minha vida é a última coisa que eu te darei.
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Não assisti a série, mas me deleitei com o teu texto.
ResponderExcluirAh, que bom que gostou! ❤️
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